Suave

Contemplar a vida

Há muitas reclamações sobre o domingo. Mas o domingo pode ser adorável por vários motivos. Um deles, poder dirigir pela cidade, ouvindo música, aproveitando a paisagem, sem tanta preocupação com o trânsito, ou com a hora.

Poucas coisas são tão gostosas quanto a sensação de admirar a vida acontecer em movimento ao som de uma boa música, e poder comparar o ritmo do mundo com o ritmo da própria alma, deixando as sinfonias tomarem conta do espírito e simplesmente cantar.

Bom domingo a todos.

O lirismo das pessoas

Pessoas são como músicas. Emitem vibrações nos gestos, no olhar. E a depender das ondas enviadas, preenchem o ar com calma, alegria, tristeza, raiva…

Recentemente, estava em São Paulo e o frio tomava conta da cidade. Entre um compromisso e outro, marquei encontro com uma amiga para tomar café.

Veio ela com toda sua energia positiva. Do sorriso, ao tom de voz no Oi, parecia um sol, uma música de verão. Não era uma alegria para satisfação social, era ela dizendo sinceramente: Que bom encontrá-la! Nossa conversa foi rápida, mas valeu como música que se volta a cantar com ânimo. Obrigada, Renatinha Brandão.

Desejo pessoas com boas vibrações musicais a vocês.

Amor de mãe

maternidade – obra impressionista de Mary Cassatt

Sempre ficava impressionada com essa frase da minha mãe: eu te amo de qualquer jeito. Parecia meio exagerada. Até que eu decidi ser mãe. Decidi, com desejo na alma, no ventre, no coração. E vi: amo meus filhos de qualquer jeito.

Eu não os tive porque queria alguém para me dar amor, eu os tive porque queria amar mais. E apesar de muitas vezes me ver no papel de quem tem algo a ensinar, eles é que me ensinam, renovando-me com questionamentos e novos gostos.

Nesse fluxo, alinhavo melhor a ternura que veio, vem e virá, unindo as pontas do amor em gerações.

Amor de mãe é mesmo o maior que há.

Fofocas e ousadia

Desde criança, não gosto muito de fofocar. Não propriamente porque vejo problemas éticos no ato.

Morei no interior. Observava a vida pacata, desejando o agito, a sucessão de eventos da cidade grande, onde estudava. Cedo constatei que quanto menos vida tinha o falante, maior era o seu rol de relatos da vida alheia. As pessoas ousadas, e geralmente mal faladas, de uma forma ou de outra, ainda que na infelicidade da tentativa frustrada ou de acusações descabidas, guardam o doce sabor da construção de um caminho que podem contemplar, mesmo na solidão de seus pensamentos. E eu via esse sabor no olhar.

Uma das pessoas que mais admirava era um dançarino lindo, assumidamente homossexual desde então, e meu professor de dança.  Imaginem sua coragem numa cidade de interior, há anos. De repente, ele se mudou para o Rio de Janeiro para trabalhar na Globo. Apesar de nunca mais ter tido notícias suas, eu o procurava em todos os programas que então assistia. Até hoje, guardo na memória sua elegância e beleza.

Lembrei de tudo isso porque vi hoje essa foto do Marc Jacobs (cujas criações amo) no Baile do Met em NY. Imaginei-o anônimo, chegando a uma festa por aqui. Certamente, ele seria ferinamente mal falado por muitos, quando na verdade, apenas está a expressar o que se chama ousadia e liberdade de ser.

Desejo ver pessoas sendo, por mais insano que isso possa parecer. É a vida, criada na mente de quem vê o mundo como a casa da própria alma, revelando-se.

Aprendendo com o aprendiz

Outro dia estava no aeroporto de São Paulo e vi duas crianças brincando de rodopiar até cair, rindo, sonorizando o ar com profunda e sincera alegria. Fiquei hipnotizada com os giros e os sons.

Há alguns minutos, meu filho chegou, numa felicidade plena, perguntando se podia brincar com caixas vazias.

Em um e outro caso, o mais marcante não é propriamente a satisfação com o simples, mas a capacidade de transformar o instante no absoluto, como se não houvesse nada além.

É compreensível. Crianças não têm tantas responsabilidades, e são poucos os fatos vividos a ponderar. Talvez nunca possamos resgatar essa superioridade espiritual, mas tê-las por perto nos leva a caminhar de volta a esse momento da vida. E por um instante, o instante é tudo.

Sonhar grande


Desde pequena, sou sonhadora. Sonhadora por dedicar parte do meu dia a projeção de momentos que espero viver, planejando um pouco a vida, e, confesso, por gostar ainda de sonhar com o que, desde logo, parece impossível.

O planejado às vezes não se realiza, e o que se assemelhava impossível sim. De uma forma ou de outra, o tempero do sonho move o espírito e o sacia.

Contei outro dia como aprecio os ensinamentos do Miguel Nicolelis. Vi esse vídeo na internet, em que ele faz uma aula inaugural na UNB e desejei, de imediato, compartilhar com amigos e alunos. É preciso sonhar e deixar que as pessoas ao redor sonhem, para superar a mediocridade e ir além. Em algum momento, quando tiverem um tempinho, assistam. Vale a pena. “Se for para sonhar que seja grande. Gasta-se o mesmo tempo com o sonho pequeno e com o grandioso. Mas o resultado do sonho grande é maior, ainda que não se realize por inteiro”

Realidades da Fantasia

Parece filme de criança, mas é algo além. Pelas feições no cinema, talvez fosse até difícil detectar quem se divertia  mais: les enfants ou moi.

Das falas engraçadíssimas da rainha sobre a sensualidade do príncipe e os casamentos modernos, à bondade esperta da Branca de Neve, o conto atual é muito mais bem contado.

Ao relatar a relação da rainha má com seus súditos, o filme é verdadeira lição simplificada de ciência política, e leva a refletir sobre ponto recorrente em nossa historia, mas que ainda precisa ser assimilado na sociedade brasileira: a prosperidade do reino não está ligada à quantidade de tributos arrecadados, mas a como a Administração utiliza o dinheiro público. Nenhum poderoso é tão importante quanto se apresenta. Curvar-se diante do poder e deixar de por em pratica a democracia, fiscalizando mais o setor público e exigindo humildade e honestidade de autoridades, é deixar de crer na importância do indivíduo.

O presente do presente

Eu me senti assim... ganhando esse montão de presentes... 

Não sei em que momento da vida, antes de simplesmente apreciar um presente ganhado pela coisa em si, passei a observar o cuidado na sua escolha. Sei que nem sempre foi assim. Quando criança, esperava coisas determinadas: uma boneca, um jogo… Saia correndo com o presente, depois de rápido “Obrigada! Obrigada!”.

Desde esse tempo incerto, mas que seguramente teve marcos, importa a adequação com minha personalidade, o elemento surpresa, o carinho. Talvez por isso considere sem graça aqueles presentes-cartões-de-loja-pegue-o-que-quiser ou escolher o meu próprio presente (rs – alguém certamente pensará: isso não vale para diamonds, bolsas maravilhosas e objetos do gênero – rs – esse ponto é mais profundo, mas ainda assim coisa por coisa é meio sem graça), assim como não gosto tanto da obrigação de presentear em datas definidas.

Presente perfeito é o inesperado, que revela a verdade do desejo de compartilhar o bom da vida. Desembrulhar vagarosamente um objeto, abrir uma cartinha (ou a caixa de mensagens e meios eletrônicos do tipo) e encontrar espírito e atenção é o máximo!

Enquanto estive de repouso, amigos queridos me surpreenderam com gestos assim: do meu bolo preferido a palavras encantadoras, fiquei comovida com cada. Cheia de gratidão, espero poder retribuir à altura. Minha gratidão é de vida inteira. Vocês são um presente maravilhoso.

Semente do saber

Alguns livros, ainda que não sejam bons por outros motivos, valem por uma frase. Ideias destiladas em poucas palavras podem ser mantras modificadores de uma vida.

Comecei a ler há alguns dias excelente livro do Miguel Nicolelis sobre o estudo do funcionamento do sistema nervoso, realizado, dentre outros motivos, para possibilitar o comando de máquinas pela mente humana. Em breve, realmente, poderemos ter um avatar.

Mas o que vem ao caso é o relato sobre o despertar do interesse do autor para o estudo do sistema nervoso. Logo no início do livro, ele narra como o professor da matéria na faculdade conseguiu cativá-lo porque soube “ensinar sem doutrinar”. E foi essa frase que me encantou “ensinar sem doutrinar”. O mestre não lhe deu as repostas do assunto (doutrina), mas fez nascer em seu espírito a dúvida e o desejo da pesquisa (ensinou a estudar).

Sendo fascinada pelo compartilhamento do conhecimento, considero uma arte germinar no espírito do outro a ânsia pelo saber. As doutrinas mudam, e as informações impostas à mente desbotam com o tempo. Mas a semente da curiosidade cultiva variado solo de crescentes informações por toda a vida.

Lições da infância: moda, prazer e consciência

 

Vestir uma roupa é ato que ultrapassa o mundo da moda. E talvez por isso goste tanto de roupa. O vestir relaciona-se com a personalidade, a comunicação, a história, a ecologia, a sociologia e pode se sujeitar a outras incontáveis óticas. É mais intelectual do que imaginam alguns. Ontem, já podendo me mexer melhor, detive-me ao prazer de escolher o que usar. Queria algo jovem, leve, com cara de atualidade. Para minha surpresa, a “cara” da atualidade veio com peças antigas do meu guarda-roupa, com o “vintage”. Hoje, peças “vintage” estão na moda, assim como “ecobags”, “hi-lo” e outras expressões reveladoras de consciência. Mas é preciso incorporar as lições por trás dessa moda no espírito. Do contrário, fica meio fake e, como quase tudo que é fake, meio brega.

Aprendi a guardar um pouco do que adquiro com minha mãe e minhas tias, para ter história. Mas no mundo atual, essa necessidade vai muito além. Não guardar o que se compra é admitir que a cada estação seu dinheiro ganha asas. É admitir falta de imaginação para brincar de um jogo simples aprendido ainda na infância: combinação!

Amo novas coleções, com suas novidades e repaginações, mas amo igualmente perceber que o já adquirido há algum tempo tem um novo valor. Às vezes, um valor ainda mais significativo e especial.

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